O movimento é uma centopeia que move a pedra de tanto que respira a terra. Desmorona as estradas que havíamos feito com a água que sempre fica nas bordas da mão quando teu cheiro transpira umidade.
Ela dançava algo comigo quando ficávamos a sós. Era a maneira que ela tinha de fazer umbigo nos poros que suavam nossos ventres. Eu ouvia um “vem” e quando terminava de ouvir sentia meus lábios também soltando esse “vem” e já não sabia se era eu que havia deitado a língua no mar ou se era ela que velejava palavras emborcadas no copo que bebíamos ao entardecer.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
ésésésés...
és prenha
de anos mascados
elaborados
por grávidos cereais
que devoras em lata
+
és pena
de voo es-garça-do
venta bem-gala
o salto coxo
eterno
do pássaro que ventou
no ventre do gato
=
és presa
das palavras roxas
que deixam os sapinhos na língua
sapa-tear o nada
até que a mosca cansada
da língua que só valsa
enforca-se
%
és cu
verdade de
brejos
garganteias gaiolas
ilhadas de moscas
para que o sapo
cum
a noite
e cum
o teu esvaziamento
não caibam
em palavras que não sejam uma língua
de anos mascados
elaborados
por grávidos cereais
que devoras em lata
+
és pena
de voo es-garça-do
venta bem-gala
o salto coxo
eterno
do pássaro que ventou
no ventre do gato
=
és presa
das palavras roxas
que deixam os sapinhos na língua
sapa-tear o nada
até que a mosca cansada
da língua que só valsa
enforca-se
%
és cu
verdade de
brejos
garganteias gaiolas
ilhadas de moscas
para que o sapo
cum
a noite
e cum
o teu esvaziamento
não caibam
em palavras que não sejam uma língua
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Anotações
I
A palarva rumina
na germinação da raiz,
atravessa o passo do chão.
II
III
A carne repousa insolação
para os cães.
A palarva rumina
na germinação da raiz,
atravessa o passo do chão.
II
III
A carne repousa insolação
para os cães.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
terça-feira, 15 de setembro de 2009
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Os nomes
Eles começaram, logo pela manhã. Acordei com a sensação de que eles haviam escondido algum objeto importante da casa. A primeira ação foi abrir portas e janelas de modo que isso representasse uma inibição para qualquer ataque que eles pudessem tentar às escondidas. Eu estava visível para além das paredes. Gritos e outros barulhos teriam onde esvaziar. A segunda ação foi comparar a quantia de objetos da casa e os objetos que enumerei numa lista como sendo os que compõem a casa, ou seja, eu tinha os objetos e a contagem deles. Logo percebi que os objetos da lista e os objetos da casa não resultavam no mesmo número. A surpresa foi descobrir que não faltavam objetos na casa! A atitude deles tinha sido mais ousada. Na lista dos objetos tinha novos nomes listados. Eram nomes que não correspondiam a objetos que eu conhecesse, mas antes a nomes abstratos. A imprecisão filosófica do fato se dispôs pelo meu corpo, de modo que este foi pesando até chegar ao chão. Encostei-me na parede e permaneci ali a tentar logicizar a lista. Ausentava e presentificava os objetos e os nomes abstratos.
Adormeceu e a noite elaborou-se na casa.
Ele começou, logo pela manhã, a correr pelos espaços vazios da casa. Corria com os olhos fixos para encontrar os objetos. Não encontrou nenhum. Deixamos apenas a lista. Ele a apanhou do chão. Correu os olhos em cada item da lista. Como retiramos os nomes que correspondiam aos objetos de sua casa, apenas restaram os nomes que havíamos acrescentado à lista. Esses nomes pareciam emplastar em seus olhos. Ele havia aproximado do rosto a lista ao limite do embaçamento das palavras. Tentou recombinar os nomes. Assim ficou o dia inteiro. Nada no corpo respondia. Adormeceu e a noite mastigou a casa.
Eles começaram, logo pela manhã, a retirar a lista de suas mãos com o cuidado de não rasgá-la. Logo depois, o carregaram para fora da casa, o deixando no pátio. Fecharam todas as portas e janelas e ficaram dentro da casa. Numa das janelas deixaram apenas o vidro fechado, neste colocaram a lista, de modo que esta fosse vista do lado de fora. E ali permaneceram, de um jeito que também ficassem visíveis. Ele acordou aturdido com o sol levando o sereno debaixo do seu corpo. Correu até a porta e tentou abri-la. Percorreu as entradas possíveis da casa e parou vidrado. Ele olhava para eles na janela. Finalmente poderia ter alguma resposta. Não imaginava que eles fossem aparecer. Aproximou-se da janela. Percebeu que a lista estava na janela sem nenhum nome escrito. Os objetos da casa foram retirados e os nomes correspondentes desapareceram da lista. Agora, ele era retirado da casa e a lista aparecia em branco como se fosse uma enorme parede branca implacável. Os nomes que não remetiam a nenhum dos objetos da casa nauseavam seu reflexo no vidro da janela. Agora ele sabia que esses nomes eram referentes a ele. Tentou reler mentalmente cada nome aproximando-os de si de forma a conseguir alguma revelação. Olhava aquele branco do papel contrastando com o anoitecer de dentro da casa. E adormeceu.
Ele começou, logo pela manhã, a procurar com os olhos a lista na janela. Não viu nada. Fechou os olhos como quem procura algo por dentro. Disse que ficaria assim, o resto do dia, contemplando a única coisa que tinha conseguido guardar. Adormeceu por fora, enquanto por dentro examinava a enorme parede branca que se alastrava na memória.
Adormeceu e a noite elaborou-se na casa.
Ele começou, logo pela manhã, a correr pelos espaços vazios da casa. Corria com os olhos fixos para encontrar os objetos. Não encontrou nenhum. Deixamos apenas a lista. Ele a apanhou do chão. Correu os olhos em cada item da lista. Como retiramos os nomes que correspondiam aos objetos de sua casa, apenas restaram os nomes que havíamos acrescentado à lista. Esses nomes pareciam emplastar em seus olhos. Ele havia aproximado do rosto a lista ao limite do embaçamento das palavras. Tentou recombinar os nomes. Assim ficou o dia inteiro. Nada no corpo respondia. Adormeceu e a noite mastigou a casa.
Eles começaram, logo pela manhã, a retirar a lista de suas mãos com o cuidado de não rasgá-la. Logo depois, o carregaram para fora da casa, o deixando no pátio. Fecharam todas as portas e janelas e ficaram dentro da casa. Numa das janelas deixaram apenas o vidro fechado, neste colocaram a lista, de modo que esta fosse vista do lado de fora. E ali permaneceram, de um jeito que também ficassem visíveis. Ele acordou aturdido com o sol levando o sereno debaixo do seu corpo. Correu até a porta e tentou abri-la. Percorreu as entradas possíveis da casa e parou vidrado. Ele olhava para eles na janela. Finalmente poderia ter alguma resposta. Não imaginava que eles fossem aparecer. Aproximou-se da janela. Percebeu que a lista estava na janela sem nenhum nome escrito. Os objetos da casa foram retirados e os nomes correspondentes desapareceram da lista. Agora, ele era retirado da casa e a lista aparecia em branco como se fosse uma enorme parede branca implacável. Os nomes que não remetiam a nenhum dos objetos da casa nauseavam seu reflexo no vidro da janela. Agora ele sabia que esses nomes eram referentes a ele. Tentou reler mentalmente cada nome aproximando-os de si de forma a conseguir alguma revelação. Olhava aquele branco do papel contrastando com o anoitecer de dentro da casa. E adormeceu.
Ele começou, logo pela manhã, a procurar com os olhos a lista na janela. Não viu nada. Fechou os olhos como quem procura algo por dentro. Disse que ficaria assim, o resto do dia, contemplando a única coisa que tinha conseguido guardar. Adormeceu por fora, enquanto por dentro examinava a enorme parede branca que se alastrava na memória.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
No quarto em que a cama está de lado
À tarde. uma dupla de chá.
depois uma xícara fazendo montanha com a outra. as xícaras são diferentes, portanto a que está em cima não cobre a debaixo. o ar quente vaza. o chá pode esfriar. Não importa, fizemos uma montanha.
depois uma xícara fazendo montanha com a outra. as xícaras são diferentes, portanto a que está em cima não cobre a debaixo. o ar quente vaza. o chá pode esfriar. Não importa, fizemos uma montanha.
I
Essa pedra fica aqui.
Tinha que ser uma velha para andar com uma sacola verde no arrastejo do chão desunindo as pedras que enfileirei. ai é muita malícia no chão essa sacola monhadinha do suor que essa velha babalitra do corpo para sustentar sua filhinha que não sai da casa do Três Bigode sei sei ele já fudia aquela do seio desparelho ai ai ai outra velha levou agorinha minha pedra para longe tá embaixo dessa merda de carro desse dotôzinho. não me abaixo para pegar, sou manco de carro. olho o olhar dele me esmiudando. está escorado no carrun. parece que está me parafusando com o polegar. não tiro o olho do olho dele que está como o farol braseador do seu carro que sei sei deve sangrar 200 na reta bem no fácil. eu queria e como. que ele tentasse o martelo do braço em pino sobre mim. era só chegar perto que era eu em boca naquele braço com meus vermes de uma nunca tequila. vermes de filas sus-tadas de reparo de anos de rua e logo e logo um belo preto ruminante esburacando o asfalto de sua pele. o braço ficaria numa confusão de bactérias. oi meu bem que faz ao meu lado desse carro não sai nunca daí? a filhinha da velha vendo os dois homens que não se conheciam tentou conduzir algo e falou pro homem dela que esse aí era eu que era um excelente morador de rua e muito do bem organizado que rastreava as retas e as inretas da rua. sim, eu dava jeitos nos lixos que nem o ninguém precisava de precisar chegar com os seus caminhões de limpeza que eu tava aí e tinha do comer bem (nota avulsa: o morador de rua se refere a ninguém como sendo outros moradores de rua, não como ele, é claro. bem falado e organizado).
Nós ainda no olho. quase que o carro tossiu para flagelar as olhadas. sentaram no banco de couro do carro como se o corpo, numa catapulta, os lançasse para um entorno de plumas. o que para mim era como saltar num lixão sem seringas ai como aquela lá do Pontal que resolveu apontalhar o meu joelho. Até hoje parece que tá im cá.
O carro saindo: ré-marcha-beijo-olhar-nojo-arrancada. a pedra debaixo do carro reaparece. eu e a pedra uma cumplicidade. agora a minha vez: dedo no umbigo - a lembrança do carro que me deixou manco – a pedra na mão - o carro do dotôzinho inteiro – o carro ajeitado na rua - o braço como catapulta – a imagem do dotôzinho mordiscando a orelha da filhinha da velha - a pedra na ar - o reflexo da pedra no vidro - o carro do dotôzinho com o vidro quebrando – quebrou. saí por uma nesga da rua pra qualquer outra rua. enquanto corro por terrenos baldios sinto a pedra resvalando alturas na minha mão.
Tinha que ser uma velha para andar com uma sacola verde no arrastejo do chão desunindo as pedras que enfileirei. ai é muita malícia no chão essa sacola monhadinha do suor que essa velha babalitra do corpo para sustentar sua filhinha que não sai da casa do Três Bigode sei sei ele já fudia aquela do seio desparelho ai ai ai outra velha levou agorinha minha pedra para longe tá embaixo dessa merda de carro desse dotôzinho. não me abaixo para pegar, sou manco de carro. olho o olhar dele me esmiudando. está escorado no carrun. parece que está me parafusando com o polegar. não tiro o olho do olho dele que está como o farol braseador do seu carro que sei sei deve sangrar 200 na reta bem no fácil. eu queria e como. que ele tentasse o martelo do braço em pino sobre mim. era só chegar perto que era eu em boca naquele braço com meus vermes de uma nunca tequila. vermes de filas sus-tadas de reparo de anos de rua e logo e logo um belo preto ruminante esburacando o asfalto de sua pele. o braço ficaria numa confusão de bactérias. oi meu bem que faz ao meu lado desse carro não sai nunca daí? a filhinha da velha vendo os dois homens que não se conheciam tentou conduzir algo e falou pro homem dela que esse aí era eu que era um excelente morador de rua e muito do bem organizado que rastreava as retas e as inretas da rua. sim, eu dava jeitos nos lixos que nem o ninguém precisava de precisar chegar com os seus caminhões de limpeza que eu tava aí e tinha do comer bem (nota avulsa: o morador de rua se refere a ninguém como sendo outros moradores de rua, não como ele, é claro. bem falado e organizado).
Nós ainda no olho. quase que o carro tossiu para flagelar as olhadas. sentaram no banco de couro do carro como se o corpo, numa catapulta, os lançasse para um entorno de plumas. o que para mim era como saltar num lixão sem seringas ai como aquela lá do Pontal que resolveu apontalhar o meu joelho. Até hoje parece que tá im cá.
O carro saindo: ré-marcha-beijo-olhar-nojo-arrancada. a pedra debaixo do carro reaparece. eu e a pedra uma cumplicidade. agora a minha vez: dedo no umbigo - a lembrança do carro que me deixou manco – a pedra na mão - o carro do dotôzinho inteiro – o carro ajeitado na rua - o braço como catapulta – a imagem do dotôzinho mordiscando a orelha da filhinha da velha - a pedra na ar - o reflexo da pedra no vidro - o carro do dotôzinho com o vidro quebrando – quebrou. saí por uma nesga da rua pra qualquer outra rua. enquanto corro por terrenos baldios sinto a pedra resvalando alturas na minha mão.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Era para quebrar as asas da mosca antes que ela
Dissesse o que disse.
Mosca na aba da língua
Aninha-se na cereja e começa a intuir
O perecível.
Dissesse o que disse.
Mosca na aba da língua
Aninha-se na cereja e começa a intuir
O perecível.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Distrações
Hábito do chão: adocicar as raízes fundas,
Dispor insetos na fundura, elaborar o mínimo por distração.
(quem diz que linear é linear nunca fez um círculo espinhoso)
Hábito do céu: pousar altura na frota de aviões.
II
O assovio no tráfego da luta
entre a pandorga e a mão. Ar suado de invento.
A pandorga retorna sempre quebrada.
Admiro o pássaro em sua esguelha,
Vê a pedra esfarelar.
III
Rebenta o olho quando a altura se desprende.
IV
de tanto andar em círculo ele degola.
Dispor insetos na fundura, elaborar o mínimo por distração.
(quem diz que linear é linear nunca fez um círculo espinhoso)
Hábito do céu: pousar altura na frota de aviões.
II
O assovio no tráfego da luta
entre a pandorga e a mão. Ar suado de invento.
A pandorga retorna sempre quebrada.
Admiro o pássaro em sua esguelha,
Vê a pedra esfarelar.
III
Rebenta o olho quando a altura se desprende.
IV
de tanto andar em círculo ele degola.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
A casa
Armar a casa
Empolgando a sombra da mobília
A ser tão móvel quanto o corpo
No penhasco da sala.
O móvel assustado pelos objetos empilhados:
O lustre amigável na colméia da flor.
O sol repensando a circunstância
De amalgamar a casa.
A casa ajustada: o acervo da altura
Esquecido em carvão.
O teto beirando o chão,
O varal no lugar do caibro.
A mulher firmando as solas no zinco
Arando a roupa que divisa o corpo de outro.
A casa exemplar: os farelos da faca
Insinuando os encargos do festejo.
Homem quebrando a telha: móvel que rebenta a altura.
O privado da lembrança empena
A madeira.
O homem e a mulher desapropriam
Sombras.
A pertença é a circunscrição dos corpos.
A casa
Livra o homem
Da casa.
Empolgando a sombra da mobília
A ser tão móvel quanto o corpo
No penhasco da sala.
O móvel assustado pelos objetos empilhados:
O lustre amigável na colméia da flor.
O sol repensando a circunstância
De amalgamar a casa.
A casa ajustada: o acervo da altura
Esquecido em carvão.
O teto beirando o chão,
O varal no lugar do caibro.
A mulher firmando as solas no zinco
Arando a roupa que divisa o corpo de outro.
A casa exemplar: os farelos da faca
Insinuando os encargos do festejo.
Homem quebrando a telha: móvel que rebenta a altura.
O privado da lembrança empena
A madeira.
O homem e a mulher desapropriam
Sombras.
A pertença é a circunscrição dos corpos.
A casa
Livra o homem
Da casa.
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